AnnaLabsavaliação nutricional

gestante: o mesmo ganho de peso pode ter significados diferentes

ABCD da gestação: antropometria, bioquímica, clínica e dietética, sempre pensando em dois: a mãe e o bebê.

ir direto para

primeiro classificamos o ponto de partida, depois avaliamos a trajetória

por que a gestante é diferente

Uma gestante que ganhou 12 kg está com o ganho adequado? Depende do IMC de antes da gestação, da semana em que ela está, da velocidade do ganho, da composição do corpo, das condições clínicas e da alimentação. Sozinho, o número do peso não responde.

tempo

acompanhamento curto

O pré-natal dura poucos meses e as medidas do corpo mudam depressa. Cada consulta conta.

dois em um

a avaliação de uma pessoa mostra o estado de duas

O estado nutricional da mãe e o do bebê andam juntos. O objetivo é chegar ao parto em boas condições.

corpo

o corpo muda por dentro

Aumentam o volume de sangue, a água do corpo, o útero, a placenta e as mamas. Ganhar peso é esperado e necessário.

peso

ganhar peso não é ganhar gordura

Do ganho total, o feto responde por cerca de 28%, o sangue e o edema por 27%, o líquido amniótico e as membranas por 22%, as mamas por 14% e a gordura por 9%.

ponto de partida

o IMC de antes decide a meta

O quanto ela deve ganhar depende do IMC pré-gestacional. O mesmo ganho de 10 kg pode ser pouco ou demais, conforme o ponto de partida.

1º trimestre

período crítico

É a fase da formação dos órgãos e do fechamento do tubo neural, por isso o ácido fólico importa, e do rastreio inicial de diabetes e pressão alta.

baixo peso

quando falta peso

mãe: deficiência nutricional, anemia e baixo ganho. bebê: restrição de crescimento (RCIU), baixo peso ao nascer e prematuridade.

excesso de peso

quando sobra peso

mãe: diabetes gestacional, hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia. bebê: macrossomia, hipoglicemia neonatal, mais gordura e maior risco cardiometabólico no futuro.

fonte: Aulas 7 e 8, avaliação nutricional da gestante

as quatro dimensões da avaliação

O ABCD da gestante tem o contexto junto: idade, histórico obstétrico, doenças prévias, condições socioeconômicas e atividade física. Nenhum indicador isolado conta toda a história.

A

antropometria

O que o corpo mostra em medidas.

  • peso, estatura e IMC pré-gestacional
  • IMC pela semana gestacional
  • ganho de peso acumulado
  • perímetro do braço e edema
B

bioquímica

O que os exames mostram por dentro.

  • hemoglobina e ferritina
  • glicemia, TOTG e HbA1c
  • vitamina D, B12 e ácido fólico
  • TSH e T4 livre
C

clínica

O que o exame físico e a história contam.

  • náuseas, azia, intestino e edema
  • pressão arterial
  • doenças e medicamentos
  • histórico obstétrico, gemelar e adolescência
D

dietética

O que e como a pessoa come.

  • recordatório de 24 h, registro e frequência
  • número de refeições e qualidade
  • aversões e desejos
  • suplementos, água e álcool
fonte: Aulas 7 e 8

o caminho do raciocínio

Cinco passos para pensar um caso, do ponto de partida ao diagnóstico integrado. Cada cartão mostra, na prática, o que fazer com a Camila, uma paciente fictícia.

  1. 1

    ponto de partida

    IMC de antes da gestação e a meta de ganho

    com a Camila28 anos, 1,62 m e 58 kg antes de engravidar. IMC pré = 58 ÷ 1,62² = 22,1: eutrofia. Meta de ganho total: 11,5 a 16,0 kg
  2. 2

    trajetória

    ganho de peso em relação à semana gestacional

    com a Camila26 semanas e 66 kg: ganho de 8 kg. Esperado até aqui: cerca de 6,8 a 8,1 kg. IMC de 25,1 está em adequado para a 26ª semana (22,7 a 27,2)
  3. 3

    alimentação

    quantidade, qualidade e micronutrientes

    com a Camilao recordatório mostra poucas frutas e hortaliças, bastante ultraprocessado e pouca água. Precisa de ferro e ácido fólico suficientes
  4. 4

    clínica

    sintomas, doenças, medicamentos e obstetrícia

    com a Camilapressão de 112/70 mmHg, sem edema, cansaço leve no fim do dia e sem doenças prévias
  5. 5

    bioquímica

    exames pedidos conforme a indicação

    com a Camilahemoglobina de 10,6 g/dL e glicemia de jejum de 84 mg/dL. Hb baixa não prova falta de ferro (a gestação dilui o sangue): pedir ferritina. TOTG entre 24 e 28 semanas, se indicado

arraste para o lado para ver os outros passos

fonte: Aulas 7 e 8

Material de estudo feito por uma estudante de nutrição a partir das aulas da disciplina. Não substitui a avaliação de um profissional nem serve como diagnóstico.

atendimento

O passo a passo da consulta de pré-natal, na ordem em que acontece. Marque o que já fez. As marcações ficam salvas neste aparelho.

conversa inicial

histórico obstétrico e clínica (C)

consumo alimentar (D)

medidas (A)

Na gestante adolescente, meça a altura em todas as consultas.

exames (B)

diagnóstico integrado

conduta e retorno

fonte: Aulas 7 e 8

exames

Os marcadores do pré-natal com o que cada um avalia e o que o resultado sugere, em quatro grupos. Escolha um:

Os valores de referência variam um pouco entre laboratórios. No exame real, confira sempre o intervalo impresso no laudo. O diagnóstico é do médico: aqui o foco é entender o resultado.

grupo 1

glicemia

Na gestação a resistência à insulina aumenta aos poucos, principalmente no 2º e 3º trimestres, por causa de hormônios e mediadores da placenta. Por isso a glicose é acompanhada de perto.

glicemia de jejum

DMG: 92 a 125 mg/dLdiabetes manifesto: 126 ou mais

por que pedir: no início do pré-natal ela mostra diabetes que já existia ou uma alteração precoce da glicose.

se alterado: de 92 a 125 indica diabetes gestacional. Com 126 ou mais, é diabetes diagnosticado na gestação (manifesto).

TOTG 75 g

jejum: 92 a 1251 h: 180 ou mais2 h: 153 a 1992 h: 200 ou mais = diabetes manifesto

por que pedir: mede a resposta à sobrecarga de glicose. É feito entre 24 e 28 semanas, quando indicado.

se alterado: na aula, um dos valores dentro dessas faixas já indica diabetes gestacional.

hemoglobina glicada (HbA1c)

diabetes manifesto: 6,5% ou mais

por que pedir: mostra o controle da glicose nos últimos meses e serve como monitoramento complementar.

se alterado: a partir de 6,5% sugere diabetes que já existia antes da gestação.

perfil lipídico e triglicerídeos

confira o intervalo do laudo

por que pedir: avalia o risco cardiometabólico.

se alterado: triglicerídeos altos se associam a pré-eclâmpsia e a resistência à insulina.

painel de raciocínio

  • Jejum entre 92 e 125 no começo do pré-natal: alteração glicêmica precoce, que entra como diabetes gestacional pelo critério da aula.
  • Jejum de 126 ou mais, glicemia ao acaso de 200 ou mais ou HbA1c de 6,5% ou mais: pense em diabetes que já existia.
  • Excesso de peso, pressão alta e glicemia alterada juntos: risco metabólico maior para a mãe e o bebê.
  • Sede e urina em excesso (poliúria e polidipsia) pedem atenção à glicose.

mini-caso: Bianca

idade
31 anos
gestação
26 semanas
glicemia de jejum
94 mg/dL
TOTG 1 h
185 mg/dL
TOTG 2 h
150 mg/dL
  1. Quais valores estão alterados?
  2. O que isso indica?
resposta de Bianca
  1. valores alteradosO jejum de 94 está entre 92 e 125 e a glicemia de 1 hora, 185, passa de 180. A de 2 horas, 150, ainda está abaixo de 153.
  2. o que indicaDiabetes gestacional, porque um valor alterado já basta no critério da aula. A conduta combina dieta, controle da glicose e acompanhamento do peso do bebê com a equipe.
grupo 2

ferro e sangue

A anemia é comum na gestação, em geral a partir do 5º ao 7º mês (da 18ª à 31ª semana). A hemoglobina é diluída pelo aumento do volume de sangue, então hemoglobina baixa não é automaticamente falta de ferro.

hemograma completo

confira o intervalo do laudo

por que pedir: rastreia anemia, infecções e alterações das células do sangue.

se alterado: serve de ponto de partida, e o resto da investigação segue pelo resultado.

hemoglobina

OMS: abaixo de 11 g/dL (1º e 3º trimestres)OMS: abaixo de 10,5 (2º trimestre)

por que pedir: mostra o transporte de oxigênio e detecta a anemia gestacional.

se alterado: investigue com ferritina e contexto clínico. Os cortes por trimestre são da OMS e não aparecem nos slides da aula.

ferritina

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostra as reservas de ferro e permite diagnóstico precoce da deficiência.

se alterado: ferritina baixa confirma falta de reserva de ferro, mesmo antes da anemia aparecer.

ferro sérico

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostra o ferro que circula e complementa o estudo do metabolismo do ferro.

se alterado: leia junto com a ferritina e o hemograma, nunca sozinho.

vitamina B12

confira o intervalo do laudo

por que pedir: participa da produção de glóbulos vermelhos e do sistema nervoso.

se alterado: falta de B12 causa anemia megaloblástica e alterações neurológicas no bebê. É fundamental em vegetarianas e veganas.

ácido fólico

confira o intervalo do laudo

por que pedir: participa da divisão das células e da síntese de DNA.

se alterado: a falta aumenta o risco de defeitos do tubo neural, por isso importa antes da gestação e no 1º trimestre.

painel de raciocínio

  • Hemoglobina baixa: peça hemograma e ferritina antes de concluir deficiência de ferro.
  • Ferritina baixa com hemoglobina normal: reserva de ferro já em queda, um risco que vale agir antes da anemia.
  • Gestante vegetariana ou vegana: lembre da vitamina B12.
  • Suplementação não substitui a avaliação: identificar a necessidade, avaliar o risco e individualizar a conduta.

mini-caso: Aline

idade
27 anos
gestação
22 semanas
hemoglobina
10,2 g/dL
queixa
cansaço e palidez
  1. A hemoglobina está abaixo do esperado?
  2. O que pedir antes de concluir a causa?
resposta de Aline
  1. hemoglobina10,2 g/dL está abaixo de 10,5, o corte da OMS para o 2º trimestre. Com cansaço e palidez, aponta anemia.
  2. o que pedirHemograma e ferritina. A hemoglobina baixa também pode vir da hemodiluição e de outras causas, então só a ferritina confirma falta de ferro. Depois se avalia a alimentação e a necessidade de suplemento.
grupo 3

proteínas, vitaminas e tireoide

Marcadores de estado proteico, inflamação, função renal, ossos e hormônios que completam o quadro conforme a indicação.

albumina sérica

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostra o estado proteico e a síntese do fígado.

se alterado: ajuda a avaliar o estado nutricional e o edema.

proteínas totais

confira o intervalo do laudo

por que pedir: avaliam o estado nutricional proteico.

se alterado: valores baixos ajudam a identificar déficit de proteína.

PCR (proteína C reativa)

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostra processo inflamatório.

se alterado: inflamação se associa a obesidade e a complicações da gestação.

ureia e creatinina

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostram a função dos rins.

se alterado: acompanham as adaptações dos rins na gestação.

vitamina D

confira o intervalo do laudo

por que pedir: participa do metabolismo dos ossos e da imunidade, e se relaciona com a pré-eclâmpsia.

se alterado: a deficiência se liga a resistência à insulina, diabetes gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia e complicações no parto.

cálcio sérico

confira o intervalo do laudo

por que pedir: mostra o equilíbrio do mineral.

se alterado: relaciona-se com a mineralização dos ossos do bebê.

TSH

confira o intervalo do laudo

por que pedir: avalia a função da tireoide.

se alterado: a tireoide influencia o desenvolvimento neurológico do bebê.

T4 livre

confira o intervalo do laudo

por que pedir: é o hormônio tireoidiano ativo, lido junto com o TSH.

se alterado: relaciona-se com o crescimento e o desenvolvimento do bebê.

magnésio e zinco

confira o intervalo do laudo

por que pedir: o magnésio participa da função dos músculos e do metabolismo. O zinco, do crescimento e da imunidade.

se alterado: a falta de zinco pode atrapalhar o desenvolvimento do bebê e a defesa do corpo.

fonte: Aulas 7 e 8
grupo 4

pressão e sinais de alerta

Doenças monitoradas ao longo do pré-natal. A nutricionista reconhece os sinais e encaminha.

hipertensão gestacional

pressão: 140/90 mmHg ou maisdepois da 20ª semana

o que é: pressão alta que surge na segunda metade da gestação em quem não tinha hipertensão antes.

fatores de risco: hábitos alimentares inadequados, sedentarismo, obesidade e histórico clínico.

pré-eclâmpsia

pressão alta + proteinúria e/ou disfunção de órgãos

o que é: hipertensão associada à proteína na urina e/ou ao comprometimento de órgãos. Aumenta a morbimortalidade.

sinais de alerta: inchaço excessivo nas mãos e no rosto, dor no estômago (epigástrica), dor de cabeça persistente e visão embaçada.

fonte: Aulas 7 e 8

métricas

Tabelas de pontos de corte e recomendações para consulta rápida, cada uma com a fonte. Escolha uma:

idade gestacional

Tempo aproximado de gravidez, pelo Ministério da Saúde

mêssemanas
1º mês4 semanas e meia
2º mês9
3º mês13 semanas e meia
4º mês18
5º mês22 semanas e meia
6º mês27 semanas e meia
7º mês31 semanas e meia
8º mês36
9º mês40 semanas e meia

Para o IMC por semana, a aula arredonda: 22 semanas e 4 dias viram 23 semanas, e 30 semanas e 2 dias ficam em 30.

fonte: Aulas 7 e 8 (MS, 2016)

IMC pré-gestacional

Peso de antes da gestação ÷ altura²

IMC (kg/m²)classificação
< 18,5baixo peso
18,5 a 24,9eutrofia
25,0 a 29,9sobrepeso
≥ 30obesidade

Se o peso de antes for desconhecido, classifique o estado nutricional inicial com o IMC, como se faz com mulheres adultas.

fonte: Aulas 7 e 8 (OMS, 1995)

ganho de peso recomendado (feto único)

O ganho depende do IMC pré-gestacional. Depois da primeira fase, o ritmo semanal vale para o 2º e o 3º trimestres.

IMC pré-gestacional1º trimestre (total)2º e 3º trimestres (por semana)ganho total na gestação
baixo peso2,3 kg0,45 a 0,59 kg12,5 a 18,0 kg
eutrofia1,6 kg0,40 a 0,50 kg11,5 a 16,0 kg
sobrepeso0,9 kg0,23 a 0,33 kg7,0 a 11,5 kg
obesidadesem valor na tabela0,17 a 0,27 kg5,0 a 9,0 kg

O 1º trimestre vem da tabela de 1990 da aula, que dá para obesidade 7,0 kg no total (até 9,1) e 0,3 kg por semana. Os totais e o ritmo semanal da tabela acima são os mais recentes e os usados nos exemplos da aula.

Exemplo da aula: IMC pré de 27 (sobrepeso), peso de 70 para 78 kg. A meta total é 7,0 a 11,5 kg, ela já ganhou 8 e ainda pode ganhar no máximo cerca de 3,5 kg.

fonte: Aulas 7 e 8 (NAM e IOM, 1990)

IMC por semana gestacional

Classificação do estado nutricional atual em qualquer semana, de 6 a 42. Role a tabela para ver todas.

semanabaixo peso (≤)adequadosobrepesoobesidade (≥)

Na aula aparecem as semanas 6 a 15. As demais seguem a mesma tabela de Atalah (1997). Na semana 40, a fonte traz o início do sobrepeso como 29,0, que se sobrepõe ao adequado. Corrigi para 29,2.

fonte: Aulas 7 e 8 e Atalah et al. (1997)

ganho de peso na gestação gemelar

Não dá para classificar o IMC por semana gestacional. Avalie o estado pré-gestacional e acompanhe o ganho.

ganho por semana (kg)baixo pesoeutróficasobrepeso
0 a 20 semanas0,57 a 0,790,45 a 0,680,34 a 0,45
20 a 28 semanas0,68 a 0,790,57 a 0,790,34 a 0,57
mais de 28 semanas0,570,450,34
ganho total (kg)baixo pesoeutróficasobrepesoobesidade
0 a 20 semanas11,3 a 15,89,0 a 13,59,0 a 11,16,75 a 9,0
20 a 28 semanas16,7 a 22,013,5 a 19,812,6 a 16,79,5 a 13,5
mais de 28 semanas22,5 a 27,918,0 a 24,317,2 a 21,213 a 17,1
fonte: Aulas 7 e 8 (Luke et al., 2003; Werutsky et al., 2008)

estatura e perímetro do braço

medidao que sugere
estatura < 1,47 a 1,53 mrisco de restrição de crescimento do bebê (RCIU)
estatura < 1,40 a 1,50 mrisco de complicações no parto
perímetro do braço < 21 cmrisco de baixo peso ao nascer

A estatura é avaliada no início da gestação. O perímetro do braço é menos sensível que o peso a mudanças de curto prazo e vale quando não há como pesar.

fonte: Aulas 7 e 8 (WHO, 1995)

diabetes na gestação

examediabetes manifestodiabetes gestacional
glicemia de jejum≥ 126 mg/dL92 a 125
glicemia ao acaso≥ 200
HbA1c≥ 6,5%
TOTG 75 g, 1 h≥ 180
TOTG 75 g, 2 h≥ 200153 a 199

O TOTG é feito após a 24ª semana (entre 24 e 28), quando indicado. Hipertensão gestacional: pressão de 140/90 mmHg ou mais depois da 20ª semana.

fonte: Aulas 7 e 8

necessidade de energia

NET = (TMB × fator de atividade) + adicional energético da gestação (AEG)

idade (anos)TMB, fórmula OMS (1985)TMB, fórmula FAO/OMS/ONU (1985)
10 a 1812,2 × peso + 7467,4 × peso + 482 × estatura (m) + 217
18 a 3014,7 × peso + 49613,3 × peso + 334 × estatura (m) + 35
30 a 608,7 × peso + 8298,7 × peso − 25 × estatura (m) + 865
fator de atividadevalor
leve1,56
moderada1,64
intensa1,82
adicional energético (AEG)valor
1º trimestre+ 200 a 250 kcal/dia
a partir do 2º trimestre+ 300 kcal/dia
sobrepeso ou obesidadeajuste individual, sem adicionar calorias de forma automática

Os fatores de atividade vêm da metodologia clássica FAO/OMS/ONU. Na prática, o nível de atividade é individual: rotina, exercício, estado nutricional e condições clínicas.

fonte: Aulas 7 e 8 (WHO/FAO/ONU, 1985)

proteína, carboidratos e lipídios

proteínarecomendação
OMS (1985)adicional de 1,2 g/dia no 1º trimestre, 6,1 g no 2º e 10,7 g no 3º (média de 6 g/dia na gestação)
IOM (2005)10 a 35% da NET, ou adicional de 25 g/dia, ou 1,1 g/kg/dia
NRC (1989)adicional de 10 a 15 g/dia, com 50% de alto valor biológico
nutrienteOMS (2003)IOM (2005)
carboidratos55 a 75% da NET45 a 65% da NET
açúcares simples< 10% da NET< 25% da NET
lipídios15 a 30% da NET20 a 35% da NET
ômega 31 a 2% da NET0,6 a 1,2% da NET
ômega 65 a 8% da NET5 a 10% da NET
fonte: Aulas 7 e 8 (Rossi, 2015)

micronutrientes na gestação

Valores para gestantes adultas de 19 a 50 anos, baseados principalmente nas DRIs.

nutrientenecessidade diáriasuplementação e observaçãopara quê
ácido fólico600 µg DFE400 µg/dia desde antes da gestação até o fim do 1º trimestreprevenção de defeitos do tubo neural
ferro27 mg30 a 60 mg/dia de ferro elementarprevenir e tratar deficiência de ferro e anemia
cálcio1.000 mg1.500 a 2.000 mg/dia de cálcio elementar quando a ingestão é baixaossos; menos risco de pré-eclâmpsia onde a ingestão é baixa
vitamina D15 µg (600 UI)individualizar; a FEBRASGO cita 600 UI ou maisossos e equilíbrio do cálcio
vitamina B122,6 µgfundamental em vegetarianas e veganassangue e desenvolvimento neurológico
zinco11 mgem geral individualizada, conforme dieta e riscoproteínas, crescimento e desenvolvimento
vitamina A770 µg RAEsem suplementação isolada universal; evitar doses altas de rotinadesenvolvimento do bebê, visão e imunidade
ômega 3 (DHA/EPA)sem RDA específicacostuma-se considerar 200 mg/dia de DHA ou mais quando se come pouco peixecérebro e visão do bebê

Raciocínio da aula: avaliar a alimentação, identificar o risco, ver a recomendação, decidir se há indicação de suplementar, definir dose e duração e monitorar. Apesar de a absorção de alguns nutrientes aumentar, a ingestão de ferro costuma ser insuficiente.

fonte: Aulas 7 e 8 (DRIs, FEBRASGO, OMS)

formas de suplemento

nutrienteforma citada na aulaobservação
ferrobisglicinato ou fumarato ferrosoo bisglicinato é mais bem tolerado pelo intestino
ácido fólicometilfolato (5-MTHF)forma ativa, que depende só em parte da enzima MTHFR
vitamina B12metilcobalaminafundamental em vegetarianas e veganas
cálciocitrato de cálcioabsorção melhor que a do carbonato
vitamina Dcolecalciferol (D3)monitorar por exame
colinabitartarato, cloreto de colina ou fosfatidilcolinaa suplementação isolada costuma ser necessária
fonte: Aulas 7 e 8

gestante adolescente

situaçãoo que fazer
mais de 2 anos da menarcaa avaliação é igual à de adultas
menos de 2 anos da menarcarisco maior de baixo peso
alturamedir em todas as consultas, porque ainda há crescimento
curva de pesoo mais importante é o traçado ascendente
classificação préviaIMC por idade, pela norma do Sisvan (Ministério da Saúde)
sempretratar como risco nutricional
fonte: Aulas 7 e 8 (Brasil, 2011)

calculadoras

Digite os dados e veja a conta, a classificação e uma frase pronta para a resposta. Para altura, use metros (1,62) ou centímetros (162). Escolha uma calculadora:

idade gestacional e data provável do parto

A DPP considera 280 dias (40 semanas) a partir da DUM. A idade gestacional arredondada é a que entra na tabela do IMC por semana. Se a DUM for incerta, vale o ultrassom feito no início da gestação.

IMC pré-gestacional e ganho de peso recomendado

IMC pré-gestacional (kg/m²)classificação

IMC pela semana gestacional

A tabela vai da 6ª à 42ª semana. Quatro dias ou mais arredondam para a semana seguinte, como na aula. Não vale para gestação gemelar.

ganho de peso: o que já ganhou e o que ainda pode ganhar

O esperado até a semana é uma estimativa: ganho do 1º trimestre mais o ritmo semanal do 2º e 3º trimestres. Em obesidade, o 1º trimestre entra como zero porque a tabela não traz valor. Só vale para feto único.

necessidade de energia e proteína

A TMB da aula vale para 10 a 60 anos. Aos 18 e 30 anos, a conta usa a faixa que começa nessa idade. Em sobrepeso ou obesidade, o adicional é individual, e não automático.

glicemia na gestação

Preencha o que tiver. O TOTG 75 g é feito entre 24 e 28 semanas, quando indicado. O diagnóstico é do médico, aqui você confere em qual faixa o valor cai.

estatura e perímetro do braço

Preencha um dos dois ou os dois. A estatura é avaliada no início da gestação. O perímetro do braço vale quando não há como pesar.

casos

Três casos fictícios para treinar. Tente responder, use as calculadoras se precisar e só depois abra a resposta.

Fernanda

ganho acima do esperado
idade
29 anos
gestação
28 semanas
altura
1,65 m
peso antes
62 kg
peso atual
78 kg
pressão
124 / 78 mmHg
glicemia de jejum
88 mg/dL
  1. Calcule o IMC pré-gestacional e classifique.
  2. Quanto ela ganhou e quanto era esperado até a 28ª semana?
  3. Quanto ainda pode ganhar?
  4. Classifique o IMC atual pela semana gestacional.
  5. Que riscos o ganho excessivo traz e o que mais olhar?
resposta da Fernanda
  1. IMC pré-gestacional62 ÷ 1,65² = 22,8 kg/m². Eutrofia (18,5 a 24,9). Meta de ganho total: 11,5 a 16,0 kg.
  2. ganho e esperadoGanhou 78 − 62 = 16 kg. O esperado até a 28ª semana é 1,6 + (0,40 a 0,50 × 15 semanas) = cerca de 7,6 a 9,1 kg. O ganho está muito acima.
  3. quanto ainda pode ganharEla já chegou ao máximo total de 16,0 kg e ainda faltam cerca de 12 semanas. O ideal é estabilizar o ganho, com o apoio da equipe de pré-natal.
  4. IMC atual78 ÷ 1,65² = 28,7 kg/m². Na 28ª semana, adequado é de 23,0 a 27,5 e sobrepeso é de 27,6 a 31,9. Está em sobrepeso gestacional.
  5. riscos e o que olharRisco de macrossomia, diabetes gestacional, hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e hipoglicemia do bebê ao nascer. Olhe a pressão, o edema (parte do peso pode ser líquido), a alimentação e o TOTG entre 24 e 28 semanas, se indicado. A glicemia de jejum de 88 está abaixo de 92.

Larissa

baixo peso e anemia
idade
22 anos, vegetariana
gestação
20 semanas
altura
1,58 m
peso antes
46 kg
peso atual
49 kg
hemoglobina
10,2 g/dL
queixa
enjoo forte até a 16ª semana
  1. Calcule o IMC pré-gestacional e classifique.
  2. O ganho de peso está adequado para a 20ª semana?
  3. Classifique o IMC atual pela semana gestacional.
  4. O que pensar da hemoglobina e do que investigar?
  5. Que cuidados com nutrientes vale ter?
resposta da Larissa
  1. IMC pré-gestacional46 ÷ 1,58² = 18,4 kg/m². Baixo peso (abaixo de 18,5). Meta de ganho total: 12,5 a 18,0 kg.
  2. ganho de pesoGanhou 3 kg. O esperado até a 20ª semana é 2,3 + (0,45 a 0,59 × 7 semanas) = cerca de 5,5 a 6,4 kg. O ganho está insuficiente, com risco de restrição de crescimento do bebê, baixo peso ao nascer e prematuridade.
  3. IMC atual49 ÷ 1,58² = 19,6 kg/m². Na 20ª semana, baixo peso é até 21,5. Continua em baixo peso.
  4. hemoglobina10,2 g/dL está abaixo de 10,5, o corte da OMS para o 2º trimestre. Ela é baixa, mas a hemodiluição também derruba a hemoglobina, então peça hemograma e ferritina antes de concluir falta de ferro.
  5. nutrientesPor ser vegetariana, a vitamina B12 é fundamental. Ferro, ácido fólico e proteína merecem atenção. Com o enjoo, o bisglicinato de ferro é mais bem tolerado. Dose e duração dependem da avaliação e da equipe.

Renata

obesidade e glicemia
idade
33 anos
gestação
25 semanas
altura
1,60 m
peso antes
88 kg
peso atual
92 kg
pressão
118 / 76 mmHg
glicemia de jejum
95 mg/dL
queixa
sede e urina em excesso
  1. Calcule o IMC pré-gestacional e a meta de ganho.
  2. O ganho até agora está dentro do esperado?
  3. Classifique o IMC atual pela semana gestacional.
  4. O que a glicemia de jejum e a queixa sugerem?
resposta da Renata
  1. IMC pré-gestacional88 ÷ 1,60² = 34,4 kg/m². Obesidade. Meta de ganho total: 5,0 a 9,0 kg, com 0,17 a 0,27 kg por semana no 2º e 3º trimestres.
  2. ganhoGanhou 92 − 88 = 4 kg. Até a 25ª semana, o esperado é cerca de 2,0 a 3,2 kg (0,17 a 0,27 × 12 semanas, sem valor para o 1º trimestre). O ganho está um pouco acima.
  3. IMC atual92 ÷ 1,60² = 35,9 kg/m². Na 25ª semana, obesidade começa em 31,7. Obesidade gestacional.
  4. glicemia e queixaO jejum de 95 está entre 92 e 125, a faixa de diabetes gestacional. Com sede e urina em excesso, a suspeita aumenta. Ela está na janela do TOTG 75 g (24 a 28 semanas). A pressão está normal.

lembretes

Situações em que é fácil errar, na prova ou na consulta, e o que fazer em cada uma.

interpretação

A gestante ganhou 12 kg. Está adequado?

faça assim: não responda só com o número. Veja o IMC de antes, a semana gestacional, a velocidade do ganho, a composição do corpo, a clínica e a alimentação.

interpretação

Primeiro o ponto de partida, depois a trajetória

faça assim: classifique o IMC pré-gestacional e só depois compare o ganho com a meta. O mesmo ganho de 10 kg tem significado diferente em IMC 19 e em IMC 29.

interpretação

Ganho de peso é ganho de gordura?

faça assim: não. Parte do peso é feto, placenta, líquido, sangue e mama. Por isso o peso não distingue o peso da mãe do peso do bebê.

interpretação

A curva de peso mudou de inclinação

faça assim: não chame de erro alimentar de cara. Pode ser edema, alteração metabólica, mudança na dieta, menos atividade, náuseas ou doença.

cálculo

Semanas e dias da gestação

faça assim: para o IMC por semana, arredonde: 4 dias ou mais contam como a semana seguinte (22 semanas e 4 dias viram 23).

cálculo

Dois IMC, duas tabelas

faça assim: o IMC de antes da gestação usa a tabela da OMS e define a meta de ganho. O IMC de agora usa a tabela por semana gestacional.

cálculo

Quanto ainda pode ganhar?

faça assim: subtraia o ganho acumulado do ganho total máximo da faixa. Se o IMC é 27, a faixa vai de 7,0 a 11,5 kg: quem ganhou 8 pode ganhar no máximo cerca de 3,5 kg.

cálculo

Energia na gestação

faça assim: NET = TMB × fator de atividade + adicional (200 a 250 kcal no 1º trimestre e 300 kcal a partir do 2º). Em sobrepeso e obesidade, o adicional não é automático.

exames

Hemoglobina baixa

faça assim: a gestação dilui o sangue, então não é automaticamente falta de ferro. Peça hemograma e ferritina e olhe o contexto.

exames

Glicemia de jejum entre 92 e 125

faça assim: essa faixa já indica diabetes gestacional. A partir de 126 pensa-se em diabetes que já existia. O TOTG 75 g fica entre 24 e 28 semanas.

conduta

Suplementar é o mesmo que avaliar?

faça assim: não. Avalie a alimentação, identifique o risco ou a deficiência, veja a recomendação, decida se há indicação, defina dose e duração e monitore.

situações especiais

Gemelar e adolescente

faça assim: na gestação gemelar não dá para usar o IMC por semana, então acompanhe o ganho. Na adolescente, meça a altura em todas as consultas, acompanhe a curva ascendente e trate sempre como risco nutricional.

teste rápido: duas gestantes ganharam 10 kg. A tem IMC pré de 19 e B tem 29. É a mesma situação?

Não. A tem IMC de 19, eutrofia, com meta total de 11,5 a 16,0 kg: ao ganhar 10 kg ainda tem uma margem de até 6 kg. B tem IMC de 29, sobrepeso, com meta de 7,0 a 11,5 kg: já usou quase tudo e pode ganhar no máximo cerca de 1,5 kg. O mesmo ganho tem significados diferentes. Compare sempre com a meta do ponto de partida e com a semana gestacional.

fonte: Aulas 7 e 8

glossário

Siglas e termos usados na avaliação da gestante. Digite para buscar.

gestação

IG
idade gestacional: tempo de gravidez em semanas e dias, contado a partir da DUM
DUM
data da última menstruação, usada para calcular a IG e a DPP
DPP
data provável do parto: DUM mais 280 dias (40 semanas)
trimestre
o 1º vai até cerca da 13ª semana, o 2º até a 27ª e o 3º, até o parto
organogênese
formação dos órgãos do bebê, intensa no 1º trimestre
tubo neural
estrutura que forma o cérebro e a medula do bebê. Fecha no 1º trimestre, e o ácido fólico ajuda a prevenir defeitos
feto único e gemelar
gestação de um bebê ou de gêmeos. No gemelar, o IMC por semana não vale, e as metas de ganho são outras
menarca
primeira menstruação. Na gestante adolescente, o tempo desde a menarca muda a avaliação
hemodiluição
diluição do sangue pelo aumento do volume de plasma na gestação. Faz a hemoglobina cair sem que haja, necessariamente, falta de ferro

antropometria

PPG
peso pré-gestacional: o peso de antes da gestação
IMC pré-gestacional
IMC calculado com o peso de antes da gestação. Define a meta de ganho de peso
IMC gestacional
IMC atual comparado com a faixa da semana gestacional (tabela de Atalah)
Atalah
autor da tabela de IMC por semana gestacional, adotada no pré-natal brasileiro
ganho de peso gestacional
diferença entre o peso atual e o peso de antes da gestação
NAM e IOM
academia de medicina dos Estados Unidos, que publicou as faixas de ganho de peso na gestação (IOM era o nome anterior)
PB
perímetro braquial (do braço). Abaixo de 21 cm indica risco de baixo peso ao nascer
BIA
bioimpedância: estima a composição do corpo. Na gestante é complementar e deve ser lida com cautela
RCIU
restrição de crescimento intrauterino: o bebê cresce menos que o esperado
macrossomia
bebê grande demais para a idade gestacional
edema
inchaço por líquido. Faz parte do ganho de peso, mas inchaço excessivo em mãos e rosto é sinal de alerta

exames e doenças

DMG
diabetes mellitus gestacional: intolerância à glicose diagnosticada na gestação. Jejum de 92 a 125 mg/dL é uma das faixas
diabetes manifesto
diabetes diagnosticado na gestação, mas que provavelmente já existia (jejum de 126 ou mais, por exemplo)
TOTG
teste oral de tolerância à glicose: mede a glicemia depois de uma dose de glicose. Na gestação usa 75 g, entre 24 e 28 semanas
HbA1c
hemoglobina glicada: média da glicemia dos últimos meses
pré-eclâmpsia
pressão alta com proteína na urina e/ou disfunção de órgãos, depois da 20ª semana
hipertensão gestacional
pressão de 140/90 mmHg ou mais depois da 20ª semana, sem hipertensão antes
ferritina
proteína que guarda ferro. Mostra as reservas do corpo
poliúria e polidipsia
urinar e ter sede em excesso, sinais que chamam atenção para a glicose
SOMP
síndrome ovariana metabólica poliendócrina, associada a risco de diabetes gestacional
TSH e T4 livre
exames da função da tireoide, importantes para o desenvolvimento neurológico do bebê

dietética

R24h
recordatório de 24 horas: a pessoa relata o que comeu e bebeu no dia anterior
QFA
questionário de frequência alimentar: mostra o consumo habitual
NET
necessidade energética total da gestante: (TMB × fator de atividade) + adicional da gestação
TMB
taxa metabólica basal: energia gasta em repouso
FA
fator de atividade: leve 1,56, moderada 1,64 e intensa 1,82
AEG
adicional energético gestacional: 200 a 250 kcal no 1º trimestre e 300 kcal a partir do 2º
DRI
ingestões dietéticas de referência: valores de necessidade de nutrientes usados como base
DFE
equivalente de folato da dieta: unidade usada para o ácido fólico
RAE
equivalente de atividade de retinol: unidade usada para a vitamina A
DHA e EPA
ômega-3 de cadeia longa, importantes para o cérebro e a visão do bebê
colina
nutriente do complexo B ligado ao desenvolvimento neurológico do bebê
quelado
mineral ligado a uma molécula que melhora a absorção e a tolerância, como o ferro bisglicinato
FEBRASGO
federação brasileira das associações de ginecologia e obstetrícia, que publica recomendações de nutrição na gravidez
Sisvan
Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, do Ministério da Saúde
feito por Anna Luiza · @annaluizasds