A tese central desta palestra: o mercado de suplementos é dominado por marketing — e o nutricionista que não distingue evidência de propaganda está falhando com o atleta. Lancha Júnior, referência histórica da suplementação esportiva no Brasil, trouxe a mesma lista de 5 suplementos do COI com perspectivas únicas: a história da creatina no Brasil, a variabilidade da cafeína e a instabilidade das formas alternativas.
Lancha Júnior chegou à mesma conclusão do Consenso COI 2018 apresentado por Bryan Saunders — mas com perspectiva de quem viveu a história de cada suplemento no Brasil:
| Suplemento | Evidência | Perspectiva Lancha |
|---|---|---|
| ⚡ Creatina | ⭐⭐⭐⭐⭐ | Proibida indevidamente pela ANVISA em 2009 — ele liderou a reabilitação em 2010 |
| ☕ Cafeína | ⭐⭐⭐⭐⭐ | Variabilidade de 48-317mg no café — cápsula anidra é mais confiável |
| 🧪 Bicarbonato | ⭐⭐⭐⭐ | Subestimado — efeito tampão real em alta intensidade |
| 🥗 Nitrato | ⭐⭐⭐⭐ | Doses comerciais frequentemente insuficientes — verificar mmol |
| 🔬 Beta-alanina | ⭐⭐⭐ | Efeito crônico — parestesia não é sinal de eficácia |
💡 "Suplementos são aperitivos — a refeição principal é a alimentação." Lancha Júnior. Nenhum suplemento substitui dieta inadequada. O nutricionista que parte para a suplementação antes de resolver a base alimentar está errando a ordem.
Carga (opcional): 20g/dia por 5-7 dias divididos em 4 doses
Forma: monoidratada — única com evidência sólida
⚠️ Gomas de creatina: instáveis em meio aquoso → degradam em creatinina (forma inativa). O estudo do cavalo Jack Point (citado por Lancha) demonstrou que gomas com creatina no mercado continham predominantemente creatinina — sem efeito ergogênico. Eduardo Reis também alertou sobre isso em sua palestra.
Timing: 45–60 min antes do exercício
Forma preferencial: cápsula anidra — biodisponibilidade mais previsível
Alternativa: carga lenta 0,1g/kg/dia por 3-4 dias (↓ desconforto GI)
Forma: cápsulas gastrorresistentes — reduz náusea
Timing: 150–180 min antes
Atenção: NÃO usar antisséptico bucal — mata as bactérias que convertem nitrato em NO
Duração mínima: 4–8 semanas para efeito mensurável
Parestesia: inofensiva — não é marcador de eficácia
Lancha Júnior narrou um episódio pouco conhecido mas historicamente relevante para a nutrição esportiva brasileira:
⚡ Implicação atual: a creatina que você prescreve hoje no Brasil é resultado direto do trabalho científico do Lancha Júnior em 2010. Saber essa história é entender por que ele tem autoridade para dizer "sem evidência, não é suplemento."
Lancha Júnior citou um estudo anedótico mas revelador sobre a qualidade dos produtos de creatina:
O estudo analisou gomas de creatina disponíveis no mercado — incluindo produtos para cavalos de corrida (Jack Point). A análise de composição revelou que as gomas continham predominantemente creatinina — o metabólito inativo da creatina, resultado da degradação em meio aquoso durante o processo de fabricação das gomas.
⚠️ Qualquer produto que apresente creatina dissolvida em líquido (bebidas prontas, gomas, soluções prontas) deve ser visto com ceticismo. A degradação em meio aquoso é química — não é questão de marca ou qualidade de fabricação.
Frases e observações registradas durante a palestra — Lancha Júnior é uma das maiores referências de nutrição esportiva do Brasil, com décadas de pesquisa e batalha regulatória.
Perguntas levantadas durante a palestra. Clique em cada uma para ver a resposta com base na literatura disponível.
A ANVISA publicou a Resolução RDC nº 23/2009 que classificou a creatina como medicamento — exigindo, portanto, aprovação como droga para ser comercializada. O argumento era que se tratava de substância com efeito farmacológico que não poderia ser vendida como suplemento alimentar.
O problema da classificação:
A creatina é uma molécula endógena — produzida naturalmente pelo organismo (fígado, rins, pâncreas) a partir de glicina, arginina e metionina. Também está presente naturalmente em carnes e peixes. Classificá-la como medicamento era o mesmo que classificar a glicose ou a leucina como drogas.
A reabilitação científica:
Lancha Júnior e colaboradores apresentaram à ANVISA uma revisão sistemática demonstrando:
• Mais de 500 estudos publicados até 2010 confirmando segurança e eficácia
• Ausência de efeitos adversos clinicamente relevantes em adultos saudáveis nas doses recomendadas
• Natureza endógena e alimentar da molécula
• Inconsistência da classificação como medicamento frente à evidência científica acumulada
A decisão de 2010:
ANVISA publicou a Resolução RDC nº 18/2010 — regulamentando os alimentos para atletas e incluindo a creatina como ingrediente permitido em suplementos esportivos.
Esse episódio é mais do que história — é a demonstração de que ciência pode mudar política pública. E de que o nutricionista que domina a literatura tem poder real sobre regulação e prática clínica.
• Forma original e mais estudada — mais de 1.000 estudos publicados
• Pureza 99,9% nas versões certificadas (Creapure® é a marca de referência de pureza)
• Custo mais baixo entre todas as formas
• Biodisponibilidade excelente via oral
• Única forma com respaldo científico sólido
Creapure®:
• Não é uma forma diferente de creatina — é uma marca de pureza
• Creatina monoidratada produzida pela AlzChem (Alemanha) com certificação de pureza e ausência de contaminantes
• Padrão-ouro de qualidade — usada nos estudos científicos
• Custo maior que genéricos, mas sem diferença de efeito quando comparada a monoidratada pura
Creatina etil éster:
• Forma esterificada prometendo maior absorção
• Evidência: estudos comparativos mostram MENOR eficácia que monoidratada
• A esterificação facilita a degradação em creatinina
• Sem evidência que justifique uso
Creatina em goma/líquido/bebida pronta:
• Instável em meio aquoso → degrada em creatinina
• O estudo do cavalo Jack Point mostrou predominância de creatinina nesses produtos
• Sem efeito ergogênico documentado
Conclusão de Lancha Júnior:
Monoidratada de qualidade verificada (idealmente Creapure® ou equivalente com certificação de terceiros) é a escolha com melhor relação custo-benefício-evidência. Tudo mais é marketing.
Filtro 1 — O composto tem evidência? (Lancha)
• Está na lista do COI? → evidência forte
• Tem revisão sistemática ou meta-análise publicada em periódico peer-reviewed? → verificar
• Os estudos foram feitos com a dose e forma que o produto oferece? → verificar
• O efeito foi replicado por grupos independentes? → necessário
Sinais de que é marketing:
• "Fórmula proprietária" sem doses declaradas
• Estudos "in house" financiados pelo fabricante
• Testemunhais de atletas famosos como "evidência"
• Mecanismo de ação vago ("otimiza o metabolismo")
• Muito mais ingredientes do que evidências
Filtro 2 — O produto entrega o composto? (Eduardo Reis)
• A dose declarada corresponde à dose eficaz dos estudos?
• O produto tem certificação de terceiro (Informed Sport, NSF)?
• A forma do composto é estável (creatina em goma → não)?
• O rótulo declara o ativo específico (mmol de nitrato, mg de cafeína anidra)?
Prática imediata:
Antes de recomendar qualquer suplemento: (1) PubMed — buscar revisão sistemática do composto. (2) Informed Sport ou NSF — verificar se o produto específico tem certificação de terceiros. Dois passos, 10 minutos, diferencial clínico real.
A evidência é clara — mulheres respondem à creatina de forma equivalente aos homens em termos de performance. Alguns estudos sugerem que mulheres podem ter menores estoques basais de creatina (menor ingestão de carne vermelha + menor massa muscular) → potencial de resposta proporcionalmente maior.
Benefícios específicos documentados em mulheres:
• ↑ força e potência (equivalente aos homens)
• ↑ saúde óssea — estudos mostram redução de marcadores de reabsorção óssea
• Benefício cognitivo — especialmente em períodos de privação de sono e em menopausa
• Potencial benefício no período pré-menstrual (modulação de sintomas)
Segurança em gestação e lactação: dados insuficientes — não recomendar por precaução.
Creatina em adolescentes:
Posição das diretrizes (ISSN 2021): não recomendada rotineiramente abaixo de 18 anos — não por evidência de dano, mas por ausência de estudos de longo prazo nessa população.
Exceção reconhecida: adolescente atleta de elite com necessidade documentada, sob supervisão médica e nutricional — avaliação caso a caso.
Creatina em idosos:
Crescente evidência de benefício — especialmente combinada com treino resistido para preservação de massa muscular e função cognitiva. Uma das populações que mais se beneficia e menos usa.
A mensagem do Lancha: a creatina é mais segura do que muitos alimentos que consumimos diariamente. O medo de prescrever creatina para mulheres ou para populações não-atletas é baseado em desconhecimento da literatura, não na evidência.
Bryan Saunders (pesquisador COI):
• Foco em mecanismos e protocolos específicos para corrida
• Apresentou os 4 mecanismos da cafeína com profundidade
• Detalhou o protocolo de top-ups de cafeína em ultra-endurance
• Ênfase no timing do nitrato (150min antes) e no alerta do antisséptico bucal
• Perspectiva mais fisiológica e de protocolo
Lancha Júnior (pesquisador e regulatório):
• Foco na qualidade dos produtos e na história regulatória brasileira
• Trouxe a história da creatina — proibição e reabilitação em 2010
• Ênfase na instabilidade das formas alternativas (gomas, soluções)
• Perspectiva mais regulatória e de mercado
• "Suplementos são aperitivos" — base alimentar primeiro
O que os dois concordam:
• Mesmos 5 suplementos com evidência
• Creatina monoidratada como única forma válida
• Variabilidade do café como problema para protocolo
• Nitrato comercial frequentemente subdosado
• Parestesia da beta-alanina ≠ eficácia
Os dois módulos juntos são mais completos do que qualquer um isolado. Bryan traz os protocolos. Lancha traz a qualidade dos produtos e o contexto regulatório. Na prática clínica, você precisa dos dois.
Como explicar sem alarmismo: "Felipe, a creatina tem evidência fortíssima — é o suplemento mais estudado do mundo. O problema não é a creatina em si — é a forma que você está usando. A creatina precisa estar em pó seco para ser estável. Quando ela é processada em forma de goma com água, ela se transforma em creatinina — que é o que seu rim filtra e joga fora. Você está pagando pela versão inativa."
Solução simples: trocar para creatina monoidratada em pó. Dissolver na hora do consumo. Custo menor, efeito real.
Aproveitar para fazer o teste: se Felipe nunca sentiu diferença com a "creatina" (goma), provavelmente porque nunca estava absorvendo creatina ativa. A monoidratada por 4-6 semanas vai mostrar o efeito real pela primeira vez.
Filtro 1 — Evidência dos compostos:
De 18 ativos típicos em pré-treinos: apenas cafeína, creatina, beta-alanina e às vezes citrulina/nitrato têm evidência real. Os outros 14 são geralmente: L-carnitina (evidência fraca para performance), taurina (segura mas sem efeito ergogênico documentado), vitaminas do complexo B em excesso (eliminadas pela urina), extratos exóticos sem estudos de qualidade. "18 ativos" é argumento de marketing — não de ciência.
Filtro 2 — O produto entrega?
Pré-treinos com "blend proprietário" frequentemente não declaram as doses individuais. Podem ter 100mg de cafeína misturados com 17 outros ingredientes em doses sub-terapêuticas. Ou 300mg de cafeína que explica toda a "energia" que Felipe sente.
O que Felipe "sente na hora" é provavelmente a cafeína — não os 18 ativos.
Proposta: identificar a dose de cafeína no pré-treino. Se for adequada (3mg/kg do Felipe), substituir por cápsula de cafeína anidra isolada — mais barata, dose conhecida, sem os 17 outros ingredientes desnecessários.
Agora (16 semanas antes):
• Creatina monoidratada 3-5g/dia — trocar da goma para o pó imediatamente. Benefício para treinos de alta intensidade e recuperação entre sessões duplas.
• Beta-alanina 3,2g/dia em 4 doses — iniciar agora para 8-12 semanas de saturação antes da prova.
• PARAR: BCAA (sem evidência adicional com proteína adequada na dieta), pré-treino de 18 ativos (substituir pela cafeína isolada).
Resolução da base alimentar PRIMEIRO:
Felipe pula café da manhã 3x/semana — isso compromete muito mais a performance do que qualquer suplemento. Resolver isso antes de qualquer protocolo.
Semana da prova:
• Wash-out de cafeína: cessar 7 dias antes para restaurar sensibilidade dos receptores
• Manter creatina e beta-alanina
Dia da prova (Ironman ~10-12h):
• Cafeína 3mg/kg, 45-60min antes da largada (cápsula anidra)
• Top-ups de cafeína a cada 90min durante a prova
• Nitrato: 1-2 shots de beterraba (≥6mmol) — 2,5h antes da largada, sem enxaguante bucal
• CHO intra-prova: protocolo de Murilo Dáttilo (90g/hora para prova >3h)
Custo revisado:
Creatina monoidratada + beta-alanina + cafeína anidra + shots de beterraba = ~R$100-140/mês vs R$520. Menos gasto, mais resultado.
Como os temas desta palestra se conectam com outras palestras do evento — Lancha Júnior e Bryan Saunders formam a dupla mais complementar do evento.
Mecanismo cognitivo: o cérebro tem alta demanda energética e usa creatina/fosfocreatina para ressíntese rápida de ATP. A suplementação aumenta os estoques de fosfocreatina cerebral — melhorando a disponibilidade energética para funções cognitivas em momentos de alta demanda.
Evidências emergentes:
• ↑ memória de curto prazo em adultos jovens após suplementação
• ↑ performance cognitiva em situações de privação de sono
• Benefício cognitivo em idosos — área de pesquisa ativa
• Investigação em depressão e saúde mental — resultados preliminares promissores
Implicação clínica: a creatina não é só para atletas. Profissionais em turnos, estudantes em período de provas, idosos com declínio cognitivo leve — são populações que podem se beneficiar. O nutricionista que conhece isso tem uma ferramenta a mais além do consultório esportivo.
Para aprofundar: Avgerinos KI et al. — "Effects of creatine supplementation on cognitive function of healthy individuals." Exp Gerontol, 2018. Revisão sistemática sobre creatina e cognição.
Camada 1 — Base alimentar (Lancha: "suplementos são aperitivos")
Sem essa camada, tudo mais é ineficiente. Um atleta que pula café da manhã e suplementa com os 5 da lista do COI ainda está errando. A base vem primeiro.
Camada 2 — Evidência do composto (Lancha + Bryan: lista do COI)
O composto foi estudado rigorosamente? Tem revisão sistemática? Está na lista do COI? Sem isso, não recomenda.
Camada 3 — Qualidade do produto (Eduardo Reis + Lancha: filtro de produto)
O produto específico entrega o composto que a evidência estudou? Na dose certa, na forma estável, sem contaminantes? Sem isso, o estudo de evidência não vale para aquele produto específico.
A maioria dos atletas e dos nutricionistas pulam para a camada 2 ou 3 sem ter a camada 1 estabelecida. E a maioria para na camada 2 sem chegar na 3. O modelo completo é o diferencial.
A posição mais completa e atualizada sobre creatina. Cobre segurança, eficácia, populações especiais, formas disponíveis. Leitura obrigatória para qualquer nutricionista esportivo.
2. COI Consensus Statement 2018 — Maughan et al., BJSM
A base de toda a discussão dos 5 suplementos. Texto completo disponível gratuitamente. Referência para qualquer conversa sobre suplementação esportiva baseada em evidência.
3. Informed Sport — www.informed-sport.com
Banco de dados de produtos certificados por terceiros independentes. Aprender a usar antes que um atleta em antidoping chegue ao consultório.
4. ANVISA RDC 18/2010 — Alimentos para atletas
A regulamentação brasileira atual de suplementos esportivos. Entender o que é permitido, o que é proibido e o que é off-label no Brasil é obrigação regulatória do nutricionista.
5. Resolver a base alimentar antes de prescrever suplemento
Antes de qualquer consulta de suplementação: avaliar ingestão calórica, distribuição de macronutrientes e timing das refeições. Se a base está inadequada, a prioridade é a base — não o suplemento.