A tese central desta palestra: as recomendações de carboidrato intra-treino são nortes, não regras. O contexto — quem é o atleta, qual é a prova, qual é o treino, qual é a intensidade — define tudo. Murilo Dáttilo trouxe ciência rigorosa e aplicação prática com uma mensagem clara: individualização não é opcional, é o método.
As recomendações de CHO intra-treino baseadas na duração do esforço são o ponto de partida — não o destino. Cada atleta pode precisar de ajuste:
| Duração | CHO/hora | Tipo | Proporção |
|---|---|---|---|
| Até 30 min | Sem necessidade | — | — |
| 30–60 min | Pequenas qtd. ou bochecho | Qualquer | Livre |
| 60–75 min | Até 30g/h | Transportador único | Livre |
| 75 min–2h | Até 60g/h | Único ou múltiplo | Livre |
| 2–3h | 90g/h | Múltiplos transportadores | 2:1 |
| +3h | 90–120g/h | Múltiplos transportadores | 1:1 ou 0,8:1 |
💡 "Recomendações são nortes, não regras absolutas." — Murilo Dáttilo. O atleta que compete em 3h30 não necessariamente precisa de 90g/hora — depende da intensidade, do treino intestinal e da resposta individual.
Murilo apresentou a modelagem de CHO para uma maratona sub-2h baseada em dados reais de oxidação exógena:
⚡ Dado importante: Murilo questionou o plano publicado do sub-2h oficial — no km 25, câmeras flagraram o atleta não pegando a bebida conforme o protocolo divulgado. O que é publicado nem sempre é exatamente o que acontece em campo.
A filosofia central de Murilo Dáttilo em relação ao intra-treino:
✅ "A oferta precisa ser contextualizada." O mesmo atleta pode precisar de 45g/hora em um treino de volume moderado e 90g/hora em uma prova de alta intensidade. Dose fixa independente do contexto é erro de prescrição.
Estudo Salvador et al. (2019) comparou batata cozida vs gel de carboidrato durante ciclismo de alta intensidade:
💡 Insight clínico de Murilo: em ultra de 33 horas, ofereceu variety of palatars (variedade de palatares) — banana, batata, gel, isotônico, arroz. O atleta que perde o apetite para o gel nem sempre perde para a batata. A variedade é estratégia, não luxo.
O hydrogel é uma formulação de CHO que forma gel em contato com o ácido gástrico — promessa de esvaziamento gástrico mais rápido e menor desconforto GI:
⚠️ "Nem todo hydrogel é igual." A formulação importa — não é porque está escrito "hydrogel" na embalagem que terá os mesmos efeitos dos estudos. Verificar a composição (pectina/alginato + proporção glicose:frutose) antes de recomendar.
Ravikanti et al. (2025) avaliaram a relação entre dose de CHO e sintomas gastrointestinais em corredores:
💡 O maior limitador da suplementação de CHO em corrida não é a absorção intestinal teórica — é a tolerância GI individual. Dois atletas com o mesmo perfil fisiológico podem ter tolerâncias completamente diferentes a 90g/hora.
O slide final de Murilo Dáttilo resume toda a filosofia da palestra em um framework de prescrição:
"Meu método é baseado em você." — a persona do atleta define o protocolo. Não existe protocolo universal que funcione para todo mundo.
Frases e observações registradas durante a palestra — Murilo Dáttilo é conhecido por desafiar o pensamento protocolar e valorizar o indivíduo acima de qualquer tabela.
Perguntas levantadas durante a palestra. Clique em cada uma para ver a resposta com base na literatura disponível.
Corredor recreativo (4h30 de maratona):
• Intensidade relativa: moderada (~65-70% VO2max) — usa mais gordura proporcionalmente
• Glicogênio não esgota tão rapidamente quanto no elite
• Treino intestinal: geralmente menos desenvolvido
• Recomendação prática: começar com 30-45g/hora, avançar para 60g/hora se bem tolerado
• Fonte: gel simples (transportador único) — não precisa de proporção 2:1 com doses menores
Atleta de elite (sub-3h):
• Intensidade relativa: alta (~80-85% VO2max) — dependência maior de CHO
• Glicogênio esgota mais rapidamente
• Treino intestinal: geralmente desenvolvido sistematicamente
• Recomendação prática: 60-90g/hora com proporção 2:1
• Fonte: múltiplos transportadores (glicose + frutose)
A pergunta-chave antes de qualquer prescrição:
• O atleta já treinou com CHO intra-treino antes?
• Qual foi a tolerância GI?
• Qual é a duração e intensidade da prova alvo?
• Qual é o orçamento (batata vs gel premium)?
A tabela de recomendações é o teto máximo embasado — não a dose de partida para todos.
• Consistência viscosa, alto teor de CHO por dose (20-30g)
• Absorção: esvaziamento gástrico variável conforme concentração
• Praticidade: alto (cabe no bolso, não precisa refrigeração)
• Custo: médio-alto
• Limitação: palatabilidade cai em provas longas (enjoo do sabor doce)
Hydrogel:
• Formulação que forma gel em contato com ácido gástrico (pectina/alginato)
• Promessa: esvaziamento gástrico mais rápido e menor osmolaridade gástrica → menos desconforto
• Evidência: redução de desconforto GI em alguns estudos, mas sem diferença de performance consistente
• Atenção: formulação importa — nem todo "hydrogel" usa pectina/alginato na proporção correta
Batata cozida (ou doce):
• Alimento real, consistência sólida
• Performance equivalente ao gel (Salvador et al., 2019)
• Vantagem: palatabilidade superior em provas longas, custo baixo, variedade sensorial
• Desvantagem: praticidade menor (precisa preparar, refrigeração, volume maior)
• Ideal para: treinos longos, ultra-endurance, atletas que enjoam de gel
Quando usar cada um:
• Corrida até 2h → gel convencional: praticidade justifica
• Corrida 2-4h → mix gel + batata/frutas: variedade de palatares
• Ultra (+4h) → batata, arroz, banana, gel intercalados: variedade é estratégia
Murilo Dáttilo: em uma ultra de 33 horas, o atleta literalmente não consegue comer gel a noite toda. Comida real é parte da estratégia nutricional — não improviso.
SGLT1 (transportador de glicose/maltodextrina) satura em ~60g/hora. GLUT5 (transportador de frutose) é independente. Combinando os dois, a absorção total ultrapassa 60g/hora sem sobrecarregar nenhum dos dois sistemas.
Proporções recomendadas por dose:
• Até 60g/hora: qualquer proporção (SGLT1 não está saturado)
• 60-90g/hora: 2:1 (glicose:frutose) — ex: 60g glicose + 30g frutose
• 90-120g/hora: 1:1 ou 0,8:1 — ex: 60g glicose + 60g frutose
Como verificar no rótulo:
Fontes de glicose: glicose, maltodextrina, amido hidrolisado
Fontes de frutose: frutose, sacarose (50% glicose + 50% frutose)
Exemplo de leitura:
Gel com 25g maltodextrina + 8g frutose = proporção ~3:1 → adequado para doses até 60g/hora
Gel com 20g maltodextrina + 10g sacarose = 20g maltodextrina + 5g glicose (da sacarose) + 5g frutose → total 25g glicose + 5g frutose = proporção ~5:1 → alto em glicose
Produtos com proporção 2:1 declarada:
Buscar: "2:1 maltodextrin:fructose" ou "dual source carbohydrate" no rótulo ou site do fabricante
Atenção: a sacarose (açúcar comum) é 50% glicose + 50% frutose. Produtos com sacarose como principal CHO já têm proporção 1:1 — o que pode ser adequado para doses mais altas (90-120g/hora).
Protocolo progressivo (exemplo para 16 semanas até uma maratona):
Semanas 1-2: nos treinos longos, 1 gel de 22g a cada 45 min (30g/hora). Foco: criar o hábito, verificar tolerância básica.
Semanas 3-4: 1 gel de 22g + 100ml isotônico a cada 40 min (~35g/hora). Observar sintomas GI.
Semanas 5-8: avançar para 40-45g/hora. Testar diferentes produtos e formatos (gel + isotônico, batata, gel diferente).
Semanas 9-12: avançar para 55-60g/hora. Começa a exigir proporção 2:1 se os produtos tiverem apenas glicose/maltodextrina.
Semanas 13-15: testar o protocolo exato da prova — mesmo produto, mesmo timing, mesma intensidade simulada.
Semana 16 (prova): executar o protocolo já testado.
Sinais de que o treino está funcionando:
• Menos náusea e inchaço que nas primeiras semanas
• Capacidade de consumir doses maiores sem sintomas
• Performance mantida após ingestão de CHO
Princípio fundamental: nunca aumentar dose e aumentar intensidade simultaneamente. Só avançar a dose quando a tolerância na dose atual estiver estabelecida.
O mecanismo do conflito:
Análogos de GLP-1 (semaglutida, tirzepatida) retardam o esvaziamento gástrico em 30-50%. O CHO ingerido durante a corrida demora mais para chegar ao intestino delgado e ser absorvido.
Consequências práticas:
• O pico de glicemia do gel ocorre mais tarde do que esperado
• O timing de ingestão precisa ser antecipado: se o atleta sem GLP-1 toma gel 20 min antes de precisar da energia, o usuário de GLP-1 pode precisar de 30-40 min
• Risco de hipoglicemia se a ingestão for muito tardia em esforços intensos
• O volume por tomada deve ser menor — o estômago já está mais cheio por mais tempo
Adaptações práticas necessárias:**
• Iniciar a ingestão de CHO mais cedo na prova
• Reduzir o volume por dose e aumentar a frequência
• Priorizar líquidos sobre géis (absorção mais rápida mesmo com esvaziamento lento)
• Monitorar a sensação de plenitude — pode mascarar necessidade energética real
Esta é uma área emergente sem protocolos validados específicos. O nutricionista precisa individualizar com base em resposta prática do atleta e monitoramento em treinos antes de competições.
1. Letícia nunca treinou com CHO nos treinos → intestino nunca foi adaptado → nas provas, é a primeira vez que o sistema GI é exposto a essa dose em esforço → sintomas GI inevitáveis.
2. 2 géis de 22g por hora = 44g/hora. Isso está dentro da recomendação, mas sem treino intestinal, mesmo 30g/hora pode gerar desconforto em algumas pessoas.
3. "Seguir o que leu na internet" = protocolo baseado em uma tabela genérica, não no corpo dela. Exatamente o oposto do "baseado em você".
Como explicar: "O problema não é o gel que você usa — é que seu intestino nunca aprendeu a receber gel durante o esforço. É como pedir para um músculo que nunca treinou aguentar uma prova de elite. A solução não é trocar o produto — é treinar o intestino."
Estratégia base (após 14 semanas de treino intestinal):
• 45-60g CHO/hora para Letícia (intensidade moderada, ultramaratona)
• Dividir em fontes variadas:
- Km 0-20: gel a cada 30-35 min (tolerância ainda boa)
- Km 20-35: isotônico 400ml/hora + 1 gel (reduzir gel sólido)
- Km 35-50: batata cozida + banana + isotônico (priorizar sólido e salgado)
Opções sólidas a preparar:
• Batata cozida em cubos com sal (30g CHO por porção de 100g) — embalada em plástico pequeno
• Banana (23g CHO por unidade média) — ideal para kit de largada nos postos
• Tâmaras (18g CHO por porção de 4 unidades) — densa em energia, fácil de carregar
A estratégia de Murilo: "em ultra, a variedade de palatares não é luxo — é parte do plano."
Fase 1 — Semanas 1-3 (introdução):
• 1 gel (22g) na hora 1 de cada treino longo (mínimo 1h30)
• Objetivo: criar o hábito, avaliar tolerância básica ao gel
• Se tolerar bem: avançar
Fase 2 — Semanas 4-6 (progressão):
• 1 gel a cada 40 min nos treinos longos (~33g/hora)
• Introduzir batata cozida em 1 treino por semana no lugar de 1 gel
• Comparar tolerância: gel vs batata
Fase 3 — Semanas 7-10 (construção):
• 1 gel + 300ml isotônico a cada 45 min (~45g/hora)
• Treinar a variedade: intercalar gel, batata, banana
• Simular os postos de abastecimento da ultra
Fase 4 — Semanas 11-13 (simulação):
• Treino longo de 3h+ com protocolo exato da prova
• Testar o kit completo: produtos, volumes, timings
• Avaliar sintomas e ajustar se necessário
Semana 14 (prova):
• Executar o protocolo testado e validado nos treinos
• Nenhuma novidade — nem produto, nem dose
Regra de Dáttilo: o treino é o laboratório. A prova é a entrega.
Como os temas desta palestra aparecem e se aprofundam em outras palestras do evento — Murilo Dáttilo aplicou na prática o que outros palestrantes construíram na teoria.
Estudos mostram que em grupos de atletas submetidos ao mesmo protocolo de CHO, a taxa de oxidação exógena pode variar de 30g/hora a 90g/hora — com a mesma ingestão. Fatores que influenciam:
• Composição da microbiota: bactérias que metabolizam CHO no intestino podem capturar parte do substrato antes da absorção
• Expressão de transportadores SGLT1 e GLUT5: varia entre indivíduos geneticamente
• Esvaziamento gástrico: altamente variável — hidratação, ansiedade, temperatura ambiente, intensidade
• Estado de treinamento intestinal: o maior modificável
Implicação clínica: dois atletas com o mesmo peso, mesma prova e mesma duração podem ter necessidades reais de CHO completamente diferentes. A recomendação da tabela é o ponto de partida para o diálogo — não para a prescrição final.
Para aprofundar: Gonzalez JT & Betts JA — "Dietary Sugars, Exercise and Hepatic Carbohydrate Metabolism." Proc Nutr Soc, 2019. Discute a variabilidade individual na oxidação exógena de CHO.
• Santiago Paes: "o perfil do paciente define como conduzir o acompanhamento"
• Luciana Iancha: "identificar o estágio de prontidão antes de prescrever"
• Murilo Dáttilo: "meu método é baseado em você"
• Fabiana Sales: "olhar o sistema inteiro, não o sintoma"
• Emille Colombo: "a prescrição precisa caber na vida real do paciente"
• João Paim: "estratificar o risco antes de prescrever a meta"
Em todos os campos — comportamental, esportivo, clínico, reprodutivo — a conclusão é a mesma: o profissional diferenciado não é o que tem o melhor protocolo genérico, é o que tem o melhor processo de individualização.
Esse é o diferencial que nenhuma IA, nenhum aplicativo e nenhuma tabela consegue substituir completamente — ainda.
O recurso mais completo e atualizado sobre CHO intra-treino. Calculadoras de CHO por duração, artigos gratuitos, protocolos práticos. Referência obrigatória.
2. Salvador et al., 2019 — Batata vs gel (J Appl Physiol)
O estudo que validou a batata como alternativa ao gel. Leitura rápida e altamente aplicável para atletas que enjoam de gel em provas longas.
3. Jeukendrup — Training the Gut (Sports Med, 2017)
O protocolo mais detalhado de treino intestinal disponível. Essencial antes de montar qualquer progressão de CHO para um atleta.
4. Sutehall et al., 2020 — Hydrogel e desconforto GI
O estudo mais relevante sobre hydrogel. Entender a metodologia ajuda a avaliar criticamente os produtos comerciais que usam esse termo.
5. Praticar o framework na consulta
Antes de abrir qualquer tabela de recomendação, fazer as perguntas de Murilo: Quem é essa pessoa? Qual é a prova? Qual é a intensidade? Qual é o treino intestinal atual? O protocolo vem depois das respostas — não antes.